Segunda-feira

Bulgária

Acabo de receber a notícia que Dia Estrelado foi selecionado para o Golden Kuker - Sofia International Animation Film Festival, na Bulgária.  O festival parece ser bem legal ... Vai ser o primeiro festival internacional só de animação que o Dia participa. Os grandes realizadores Phil Mulloy e Juan Pablo Zaramella fazem parte do júri desse ano :]


O site: http://animationfest-bg.eu/en/competition

Também em junho, o filme será exibido no 22˚ Cine-Ceará (http://cineceara.com/), no 9˚ Festival de Maringá (http://www.festcinemaringa.com.br/2012/) e no 14˚ FICA (http://www.fica.art.br/)

As exibições de abril foram no Cine Fest Brasil Canudos e no Cine-PE, onde levou o prêmio de Melhor Edição de Som.

Parte da equipe do Dia, no Cine-PE

Não falei ainda sobre a experiência na Romênia, onde o filme foi exibido em março. O Next IFF foi incrível, a exibição do filme foi muito bacana e ele foi bem recebido por lá. Me surpreendi com a seleção de filmes, gostei de muita coisa que vi. Além disso, me receberam de forma muito calorosa e foram extremamente atenciosos. Fiz amigos maravilhosos.

Um pequeno vídeo dessa experência por lá:

http://vimeo.com/40903575

Sábado

Película

Olha quem chegou por aqui! :D


Dia Estrelado: Animadores

Quero falar um pouco sobre as etapas agora, devagarinho. Começando pelos animadores.
Comecei animando sozinha no filme, e tinha o Diego Mascaro como assistente... Ele trabalhou  por 2 anos com a gente, primeiro, na equipe de arte, construindo as maquetes e bonecos (aliás, trabalho incrível o dele)...  e depois como assistente de animação, nos primeiros meses de filmagem. Nessa época, éramos os dois no estúdio. Marcelo, o fotógrafo, vinha montar a luz do plano e ia embora... E quando acabávamos de animar, ele voltava p/ montar a próxima cena.
Depois, no final das filmagens, em janeiro de 2011, Diego voltou para a animar o pôr-do-sol com a gente. O céu, todo construído de grossas camadas de massa de modelar,  tinha 7 metros de extensão por 2 de altura. Ao todo, 4 pessoas animaram (Diego, Maurício, Renata e eu), intensamente, 12 horas por dia durante 3 dias (para 20 segundos de animação).  (esse processo do céu ainda vai ganhar um outro post mais p/ frente)

Bom, em janeiro de 2010, o Fábio Yamaji, animador incrível de São Paulo, veio me ajudar a animar... Passou 1 mês em Recife, ele animando numa maquete, eu em outra. A participação do Fábio foi super importante pro filme. Quando terminei de escrever o projeto e que conseguimos apoio da prefeitura do Recife, fui logo entrando em contato com ele, pedindo ajuda, dicas e coisa e tal. Até então eu não o conhecia, só por e-mail mesmo. Acabei indo pro SP fazer um workshop com ele e bater um papo (isso em 2007 ainda). Foi ótimo. Quando Fábio veio animar, acabei passando pra ele basicamente planos de caminhada. O personagem principal (Negão) anda muiiiiito no filme, e várias coisas dificultavam a animação. Por escolha estética minha, queria o boneco com as perninhas curtas, sem joelho... E queria que eles fossem feitos de massa de modelar (sim, queria ver as impressões digitais mesmo, não queria usar látex ou qq coisa parecida - mas usamos uma massinha especial, a Newplast).
Enfim, Fábio acabou voltando depois para passar mais 20 dias, um ano depois, na época em que estávamos no maior gás, unindo todas as forças para terminar. Tínhamos acabado de passar um super sufoco, o estúdio tinha sido roubado, levaram todos os nossos equipamentos de trabalho. E aí chamamos o  reforço geral.

Legal falar da parceiria do Tiago Mal, da Rocambole (de São Carlos)...  Deixamos todos os planos com movimento de câmera para o final. Entrei em contato com o Tiago e ele foi super legal, topou construir um travelling de acordo com as necessidades do filme. O cara é maluco, constrói tudo, domina mesmo! Ficou perfeito... Foi levar em Recife, e passou uma semana nos dando força no estúdio. Para quem não tem muito contato com animação, em stop motion, todos os movimentos de câmera também tem que ser feitos frame a frame, durante a captação. Ou seja, mexe o boneco, mexe a câmera, tira a foto...


Voltando para 2010 agora. Depois do Fábio vir a primeira vez, e antes de acontecer o roubo (fim de 2010), o Maurício Nunes foi animar no filme. Ele passou 8 meses por lá, até os últimos dias filmagem. Maurício tinha uma ótima experiência com animação 2D, mas não tinha tido muito contato com stop motion. Acabamos fazendo umas experiências e ele simplesmente arrebentou geral. Se garantiu demais! Foi muito massa trabalhar com ele, a contribuição que ele deu pro filme foi absurda! Sem mais.
Renata Claus também participou em duas etapas diferentes. Ela tinha trabalhado na equipe de arte, no início do projeto. Foi daquelas que entrou com todo o gás, colaborando em todos os sentidos. Quando voltou, ficou, no início, fazendo assistência de animação e recuperando cenários e bonecos (eles se desgastam com muita facilidade)... Mas assim que o Fábio voltou p/ São Paulo ela começou a animar, e foi ótimo! Perfeccionista que só ...  exigente também! Eu falava que a cena tava ótima e ela custava a acreditar. 

E agora uma colaboração do Ceará... Conheci o Diego Akel numa rápida passagem pelo Anima Mundi, em 2010.  O cara é super simpático, não tem como não ir com a cara dele! Ali, passei a conhecer seu trabalho. Akel tem um tipo de animação muito diferente do que costumamos a ver no Brasil, ele explora formas abstratas de maneira bem especial. Bom, fiquei encucada com o trabalho dele e já tava martelando possíveis parcerias. Voltando para a filmagem, percebi que seria ótimo poder tê-lo como parte da equipe de animadores para animar o pôr-do-sol. Infelizmente, as datas acabaram não batendo. Mas logo arranjei uma outra função p/ ele: além do pôr-do-sol, tinha uma outra animação do céu, um delírio, onde as formas iniciais do céu se transformavam em coisas abstratas. Construímos o céu em miniatura e mandamos p/ ele lá em Fortaleza.. Passei as orientações e, pimba! tiro na mosca! Adorei o resultado final. Uma parceria que já vem se extendendo em outros projetos.
 E eu! :]


Quarta-feira

Dia Estrelado na Romênia



Dia Estrelado terá sua estreia internacional na Romênia! O filme vai competir no 6th Next Film Festival Bucharest. Dos 1200 filmes inscritos, 27 fazem parte da competição oficial. Dia Estrelado estará representando o Brasil. Dia desses as temperaturas não tavam nada agradáveis por lá, 35 graus negativos! Mas daqui p/ final de março as coisas devem esquentar um pouco!

http://www.nextfilmfestival.ro/



A estreia mundial aconteceu em novembro de 2011, no IV Janela Internacional de Cinema do Recife. Foi super gostoso estrear o filme lá, a recepção também foi bem massa. O filme ganhou Melhor Contribuição Artística pelo júri oficial e Menção Honrosa pelo Janela Crítica.

premiação do Janela
Ainda em novembro, o filme foi convidado para uma sessão especial dentro do I Festival Brasil Stop Motion. A sessão foi no cinema São Luiz, depois rolou um debate bem legal com boa parte da equipe do filme.

Em dezembro,  o filme passou no 13˚ Festival de Vídeo de Pernambuco, onde ganhou os prêmios de Melhor Animação pelo júri oficial e Melhor Filme pelo júri da ABD/APECI.



Terça-feira

O longo processo

Queria falar um pouco sobre o processo de fazer  Dia Estrelado. Como alguns já sabem, o filme durou 4 anos para ficar pronto... Muita coisa aconteceu nesse período!

Desde cedo tive interesse pela animação stop motion, talvez pelo fato de a técnica ter uma ligação muito forte com a arte em si, o artesanal... É tudo palpável, físico. Aquela mundo inteiro existe ali, mas em miniatura... É fascinante!

Meus primeiros experimentos foram na escola, no primeiro ano científico, fiz a abertura de um trabalho de história, tudo bem tosco. Mais tarde, fiz mais alguns experimentos, mas tudo muito caseiro, amador. Não tinha de fato noção de alguns princípios básicos de animação, meu timing era terrível...

Comecei minha pesquisa por filmes de animação e descobri alguns animadores... os tchecos Svankmajer e Michaela Pavlátová me trouxeram muita inspiração. Filmes como Repete  e Jabberwocky  foram essenciais para a minha construção e inserção no mundo da animação.

Quando comecei a escrever Dia Estrelado, no início de 2007, não tinha ideia de como iria realizá-lo. Começava a escrever e, de repente, parava e pensava, epa, peraí, mas como é que vou animar isso aqui? Bloqueio chato. Quando conversava com Tião, meu companheiro desde o início do processo, ele me falava: pensa na história que você quer contar, deixa para pensar depois em como você vai fazer. E eu sei que você vai conseguir fazer. Ok, fiz isso, acabei escrevendo um roteiro de 17 minutos.  E 17 minutos de animação stop motion, com milhões de cenas, vários movimentos complicados. Enfim, acho que tentei dar um grande passo e ainda não tava preparada para isso.  Por isso apanhei tanto. Mas no final das contas, deu certo!

Todo mundo aprendeu fazendo. Eu aprendi a dirigir, animar... O fotógrafo, Marcelo Lordello,  nunca tinha trabalhado em um filme de animação... Maíra Mesquita, diretora de arte, também nunca tinha feito arte para animação... Enfim, a gente foi vendo que a coisa toda era muito mais complicada do que se imaginava. No início, achei que poderia filmar tudo dentro do meu quarto! Ilusão... Tivemos que alugar um estúdio bem grande... No final das contas, 2 maquetes externas de 3x3 m, outra de 4x4, mais duas internas de 1x1... Um mundo!

Além do filme, ainda tinha a faculdade! Me formei em julho de 2009, ou seja, entre 2007 e 2009, tive que levar as duas coisas juntas...

Agradeço muito toda a equipe que acreditou no processo, sem ela eu realmente não teria conseguido. Muita gente que trabalhou quase de graça, outras, de graça mesmo! E sempre acreditando no filme, dando a maior força.

Fazer esse filme foi a melhor universidade do mundo.

                                                                                                                                                                       foto: Victor Jucá





Quinta-feira

Sábado

Festival de Annecy

Em junho do ano passado, estive no Festival de Annecy (França), considerado o maior festival de animação do mundo. A cidade de Annecy fica a uma hora e meia de Lyon e a uns 50 minutos de Genebra (Suiça). Fui trabalhar por lá, procurar filmes para o Animage, festival que faço curadoria aqui em Recife.

A cidade é incrível! Linda. Ela tem um lago tão grande  que a vista nem alcança a outra margem. As ruas são pequininas, rodeadas de canais e pontes, e tem muitos bistrôs aconchegantes espalhados por toda a cidade. Uma família francesa muito gente boa me recebeu na casa deles, acabei roubando o quarto da filha mais nova. A localização era perfeita: ao lado do Bonlieu, onde o festival acontecia.


                                                                                                                              fotos: Nara Normande

Todo ano o festival homenageia um país,  nessa edição foi os Estados Unidos. Além de várias sessões especiais de retrospectiva e expectativa da produção americana, desde os mainstreams até os filmes mais independentes, rolou também uma sessão do festival underground americano Spike and Mike - a Sick and Twisted Animated Festival.  Foi no Spike and Mike que alguns autores hoje consagrados mostraram suas primeiras obras, como Tim Burton, Don Hertezfeldt, Bill Plympton, além da série  Happy Tree Friends.

Os dois amigos Spike e Mike fundaram o festival juntos, em 1977 (antes era chamado de Festival of Animation).  Spike faleceu em 1994 e  Mike continua produzindo sozinho, com todo o gás. Ele chama a atenção por onde passa, sempre com um chapéu enorme na cabeça e tentando vender uns DVDs de seu festival. Ele fez uma seleção especial para a sessão de Annecy. Confesso que minha expectativa era muito grande e me decepcionei um pouco, vi alguns filmes interessantes, mas o balanço geral foi negativo. Muitos filmes só estavam ali por serem violentos ou bizarros, não necessariamente bons.


                              Mike, seus peitos postiços e seu clássico chapéu, no Bonlieu do Festival                                                   

Algumas celebridades do mundo da animação circulavam pelo festival tranquilamente. Apenas um ou outro fã pedia um rabisco num caderno. Era possível dar de cara com Bill Plympton, Will Vinton, PES, Regina Pessoa, Joan Gratz  e por aí vai.

Me surpreendi com a competição de filmes de gradução.  Algumas animações mais experimentais e ousadas, difíceis de encontrar na competição oficial. Uma delas,  que até exibimos no Animage, foi a dinamarquesa Heavy Heads, da diretora Helena Frank.

Heavy Heads, de Helena Frank

A plateia é um caso a parte. Os estudantes de animação invadem as salas e parece que tomam algum tipo de droga. Eles riem de tudo, fazem barulhinhos com tudo. A diversão deles era, antes do início das sessões, ficar jogando aviãozinho de papel. O avião que chegasse mais longe, eles aplaudiam. Durante ou entre os filmes, se aparecesse alguma tela preta, alguém costumava gritar "Eu tô vendo tudo preto!", e o resto da platéia gritava: "Cala a boca!". E riam loucamente.
Pelo que pude perceber, o festival sente orgulho disso.

Mas foi na plateia que conheci uma figura muito interessante, Jean-Pierre Segain, um senhor de 60 anos extremamente simpático. A sintonia foi tanta que marcamos uma conversa no final do dia, num café.

Jean Pierre mora numa vilinha a uma hora de Annecy chamada Echenevex e, há 25 anos,  acompanha o festival. Professor de crianças especiais aposentado, ele conta que costumava fazer animações em mesa de luz e experimentos em stop motion com câmeras super 8.

Sobre o festival, ele comenta: "Adoro vir aqui para assistir aos curtas, são mais difíceis de encontrar. Os longas normalmente tem distribuição, passam nas TVs." Perguntei a ele o que  estava achando da qualidade dos filmes desse ano: " Eu acho que muitos filmes aqui tem roteiros muito fracos, muito clichês.  Eu gosto das coisas mais sombrias, duras, coisas do leste europeu, República Tcheca, Hungria. Adoro o Yuri Norstein (animador russo). Também adoro as coisas do NFB (National Film Board), McLaren! "

A conversa durou umas 3 horas, e foi  a pessoa mais incrível que conheci na viagem!

Jean Pierre
Todo ano, a Nancy Phelps, organizadora do Annecy PLUS (que falarei já, já), consegue reunir, numa tarde deliciosa em frente ao lago, desde estudantes a artistas renomados, para o piquenique dos animadores.  O piquenique é muito aguardado e sempre acontece no sábado, no penúltimo dia do festival. Cada um traz o que quer, coloca numa grande toalha e pronto, a festa começa.

"O piquenique é realmente maravilhoso. Você pode sentar onde quiser e conversar com alguém que você nunca viu, ou simplesmente bater um papo com um artista que você admira. Ninguém vai te perguntar: Ei, quem é você? O que está fazendo aqui?", fala Nancy, com uma taça de vinho na mão e um sorriso enorme no rosto.

Nancy, no piquenique dos animadores

A Nancy e o Bill Plympton organizam juntos um evento bem interessante por lá chamado ANNECY PLUS.  É um festival paralelo que acontece dentro de um bar, com alguns filmes que foram rejeitados do festival oficial. Conversei um pouco com os dois sobre isso.

nara    Como surgiu a ideia do festival?

bill    Há seis anos o meu filme Guard Dog (o primeiro da série do famoso cachorrinho, indicado ao oscar de melhor animação) foi rejeitado do festival. Mas eu realmente queria mostrar o filme lá! Conversei com a Nancy Phelps sobre a possibilidade de exibir o filme em algum lugar e ela adorou a ideia. Eu encontrei algumas pessoas que também tinham tido os filmes rejeitados e queriam exibir, então organizamos uma mostra.  Desde então, o evento tem sido bem popular, as pessoas adoram. O mais legal é que além de assistir bons filmes, as pessoas podem escutar uma boa música enquanto tomam algumas cervejas.

nara Como vocês escolhem os filmes? Vocês acabam tendo que rejeitar alguns?

bill  O evento ficou conhecido e hoje em dia temos que rejeitar alguns filmes porque é simplesmeste impossível exibir tudo. Agora, eu e Nancy fazemos uma curadoria.

nancy  No início, a gente brigava muito na escolha dos filmes! Hoje decidimos o seguinte: eu monto dois programas e Bill os outros dois. É mais fácil. Ano passado, o festival ofereceu p/ gente uma sala para exibir os filmes. E  eu disse, não, vocês não entendem, vocês já rejeitaram esses filmes! A melhor coisa é ter um lugar onde todos podem entrar e sair, sem burocracia.

nara  Aproveitando essa conversa, Bill, em quais projetos você está envolvido agora?

bill  Estou trabalhando num filme que provavelmente no próximo ano ficará pronto. Em 1981, eu mostrei esse filme aqui como um work in progress. Resolvemos retomá-lo agora, é um filme do Winsor McCay (animador historicamente importante, responsável pelos primeiros filmes de animação), e eu tô trabalhando bastante nele, colorindo-o, desenhando, prometo que não vai ser entediante!


Bill plympton, no Bonlieu do festival

Se tudo der certo, estarei por lá esse ano novamente!