sábado

Festival de Annecy

Em junho do ano passado, estive no Festival de Annecy (França), considerado o maior festival de animação do mundo. A cidade de Annecy fica a uma hora e meia de Lyon e a uns 50 minutos de Genebra (Suiça). Fui trabalhar por lá, procurar filmes para o Animage, festival que faço curadoria aqui em Recife.

A cidade é incrível! Linda. Ela tem um lago tão grande  que a vista nem alcança a outra margem. As ruas são pequininas, rodeadas de canais e pontes, e tem muitos bistrôs aconchegantes espalhados por toda a cidade. Uma família francesa muito gente boa me recebeu na casa deles, acabei roubando o quarto da filha mais nova. A localização era perfeita: ao lado do Bonlieu, onde o festival acontecia.


                                                                                                                              fotos: Nara Normande

Todo ano o festival homenageia um país,  nessa edição foi os Estados Unidos. Além de várias sessões especiais de retrospectiva e expectativa da produção americana, desde os mainstreams até os filmes mais independentes, rolou também uma sessão do festival underground americano Spike and Mike - a Sick and Twisted Animated Festival.  Foi no Spike and Mike que alguns autores hoje consagrados mostraram suas primeiras obras, como Tim Burton, Don Hertezfeldt, Bill Plympton, além da série  Happy Tree Friends.

Os dois amigos Spike e Mike fundaram o festival juntos, em 1977 (antes era chamado de Festival of Animation).  Spike faleceu em 1994 e  Mike continua produzindo sozinho, com todo o gás. Ele chama a atenção por onde passa, sempre com um chapéu enorme na cabeça e tentando vender uns DVDs de seu festival. Ele fez uma seleção especial para a sessão de Annecy. Confesso que minha expectativa era muito grande e me decepcionei um pouco, vi alguns filmes interessantes, mas o balanço geral foi negativo. Muitos filmes só estavam ali por serem violentos ou bizarros, não necessariamente bons.


                              Mike, seus peitos postiços e seu clássico chapéu, no Bonlieu do Festival                                                   

Algumas celebridades do mundo da animação circulavam pelo festival tranquilamente. Apenas um ou outro fã pedia um rabisco num caderno. Era possível dar de cara com Bill Plympton, Will Vinton, PES, Regina Pessoa, Joan Gratz  e por aí vai.

Me surpreendi com a competição de filmes de gradução.  Algumas animações mais experimentais e ousadas, difíceis de encontrar na competição oficial. Uma delas,  que até exibimos no Animage, foi a dinamarquesa Heavy Heads, da diretora Helena Frank.

Heavy Heads, de Helena Frank

A plateia é um caso a parte. Os estudantes de animação invadem as salas e parece que tomam algum tipo de droga. Eles riem de tudo, fazem barulhinhos com tudo. A diversão deles era, antes do início das sessões, ficar jogando aviãozinho de papel. O avião que chegasse mais longe, eles aplaudiam. Durante ou entre os filmes, se aparecesse alguma tela preta, alguém costumava gritar "Eu tô vendo tudo preto!", e o resto da platéia gritava: "Cala a boca!". E riam loucamente.
Pelo que pude perceber, o festival sente orgulho disso.

Mas foi na plateia que conheci uma figura muito interessante, Jean-Pierre Segain, um senhor de 60 anos extremamente simpático. A sintonia foi tanta que marcamos uma conversa no final do dia, num café.

Jean Pierre mora numa vilinha a uma hora de Annecy chamada Echenevex e, há 25 anos,  acompanha o festival. Professor de crianças especiais aposentado, ele conta que costumava fazer animações em mesa de luz e experimentos em stop motion com câmeras super 8.

Sobre o festival, ele comenta: "Adoro vir aqui para assistir aos curtas, são mais difíceis de encontrar. Os longas normalmente tem distribuição, passam nas TVs." Perguntei a ele o que  estava achando da qualidade dos filmes desse ano: " Eu acho que muitos filmes aqui tem roteiros muito fracos, muito clichês.  Eu gosto das coisas mais sombrias, duras, coisas do leste europeu, República Tcheca, Hungria. Adoro o Yuri Norstein (animador russo). Também adoro as coisas do NFB (National Film Board), McLaren! "

A conversa durou umas 3 horas, e foi  a pessoa mais incrível que conheci na viagem!

Jean Pierre
Todo ano, a Nancy Phelps, organizadora do Annecy PLUS (que falarei já, já), consegue reunir, numa tarde deliciosa em frente ao lago, desde estudantes a artistas renomados, para o piquenique dos animadores.  O piquenique é muito aguardado e sempre acontece no sábado, no penúltimo dia do festival. Cada um traz o que quer, coloca numa grande toalha e pronto, a festa começa.

"O piquenique é realmente maravilhoso. Você pode sentar onde quiser e conversar com alguém que você nunca viu, ou simplesmente bater um papo com um artista que você admira. Ninguém vai te perguntar: Ei, quem é você? O que está fazendo aqui?", fala Nancy, com uma taça de vinho na mão e um sorriso enorme no rosto.

Nancy, no piquenique dos animadores

A Nancy e o Bill Plympton organizam juntos um evento bem interessante por lá chamado ANNECY PLUS.  É um festival paralelo que acontece dentro de um bar, com alguns filmes que foram rejeitados do festival oficial. Conversei um pouco com os dois sobre isso.

nara    Como surgiu a ideia do festival?

bill    Há seis anos o meu filme Guard Dog (o primeiro da série do famoso cachorrinho, indicado ao oscar de melhor animação) foi rejeitado do festival. Mas eu realmente queria mostrar o filme lá! Conversei com a Nancy Phelps sobre a possibilidade de exibir o filme em algum lugar e ela adorou a ideia. Eu encontrei algumas pessoas que também tinham tido os filmes rejeitados e queriam exibir, então organizamos uma mostra.  Desde então, o evento tem sido bem popular, as pessoas adoram. O mais legal é que além de assistir bons filmes, as pessoas podem escutar uma boa música enquanto tomam algumas cervejas.

nara Como vocês escolhem os filmes? Vocês acabam tendo que rejeitar alguns?

bill  O evento ficou conhecido e hoje em dia temos que rejeitar alguns filmes porque é simplesmeste impossível exibir tudo. Agora, eu e Nancy fazemos uma curadoria.

nancy  No início, a gente brigava muito na escolha dos filmes! Hoje decidimos o seguinte: eu monto dois programas e Bill os outros dois. É mais fácil. Ano passado, o festival ofereceu p/ gente uma sala para exibir os filmes. E  eu disse, não, vocês não entendem, vocês já rejeitaram esses filmes! A melhor coisa é ter um lugar onde todos podem entrar e sair, sem burocracia.

nara  Aproveitando essa conversa, Bill, em quais projetos você está envolvido agora?

bill  Estou trabalhando num filme que provavelmente no próximo ano ficará pronto. Em 1981, eu mostrei esse filme aqui como um work in progress. Resolvemos retomá-lo agora, é um filme do Winsor McCay (animador historicamente importante, responsável pelos primeiros filmes de animação), e eu tô trabalhando bastante nele, colorindo-o, desenhando, prometo que não vai ser entediante!


Bill plympton, no Bonlieu do festival

Se tudo der certo, estarei por lá esse ano novamente!





sexta-feira

Começando...

Criei esse blog por dois motivos: mostrar um pouco do processo da animação que dirigi, Dia Estrelado, e escrever sobre cinema de animação. Espero que curtam.

Dá uma olhada no teaser do filme aqui